Veja o que é #FATO ou #FAKE sobre o desastre em Brumadinho

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Mensagem sobre suposto ataque terrorista e vídeos fora de contexto têm viralizado nas redes sociais. Polícia Militar de Minas Gerais já fez alerta sobre boatos.

Em meio ao drama do resgate das vítimas após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, na última sexta-feira (25), uma série de conteúdos falsos e vídeos e imagens fora de contexto começaram a circular nas redes sociais e aplicativos de mensagens. A equipe do Fato ou Fake verificou o que é verdade e o que é boato sobre o desastre em Minas Gerais.

Este texto tem sido atualizado com novas checagens.

Vídeo de dono de pousada

O vídeo de um homem compartilhando uma mensagem sobre o que se deve valorizar antes da morte circula nas redes sociais atribuído a Marcio Paulo Barbosa Pena Mascarenhas, dono da Pousada Nova Estância, soterrada após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. As postagens que acompanham o vídeo dizem que ele foi gravado pouco antes de o empresário morrer. A informação é #FAKE.

A mensagem “A gente vai embora” foi criada na verdade pelo jornalista e locutor Sérgio Cursino e publicada no dia 30 de janeiro no canal dele no Youtube. Na página de Cursino no Facebook, ele inclusive fez uma postagem sobre a confusão. “Comunicado: sou o morto mais saudável do Brasil. E vivo”.

Bebê resgatado e ‘bombeiro’ emocionado

Circula nas redes sociais um vídeo em que um bebê é resgatado por um homem fardado. A mensagem que acompanha o vídeo diz que o bebê foi resgatado por um militar israelense na tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. Ela é #FAKE. O resgate ocorreu em Idlib, na Síria, e foi noticiado por veículos da imprensa em 2016. Em apenas um dos posts do Facebook, a mensagem falsa teve mais de 80 mil compartilhamentos.

A rede de televisão “CNN” publicou o vídeo sobre o resgate em 30 de setembro de 2016. A apresentadora de TV diz que o vídeo foi registrado na Síria após uma explosão e que os homens são da Defesa Civil da Síria.

Risco em Cubatão

Uma mensagem que circula nas redes sociais alerta para possibilidade de rompimento de uma cava subaquática da Vale, cheia de rejeitos químicos, em Cubatão (SP). O texto é #FAKE. Segundo a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a cava não oferece riscos à natureza ou à comunidade.

O Ministério Público Federal, no entanto, já tentou impedir a cava de ser realizada e quer um novo estudo. Segundo o MPF, o projeto que serviu de base para a licença de operação concedida pela Cetesb foi alterado e uma nova avaliação de impacto ambiental é necessária. O órgão vê riscos de contaminação do mar e do subsolo marinho na obra.

A cava não é de responsabilidade direta da Vale. A obra é realizada pelo Terminal de Integração Portuária Luiz Alberto Mesquita (Tiplam) e pela Valor Logística Integrada (VLI).

A Vale é uma das acionistas da VLI, junto com Mitsui, Brookfield e o FI-FGTS.

De acordo com a prefeitura da cidade paulista, a cava em construção no Canal de Piaçaguera, entre o município e a cidade de Santos, é para o aprofundamento do leito do canal. O curso d’água liga o porto de Santos ao polo industrial de Piaçaguera, e a medida, diz a administração municipal, facilita o acesso de navios de grande porte. A cava está sendo preenchida com material dragado do próprio leito do rio.

Ainda segundo a Prefeitura de Cubatão, nas décadas de 1970 e 80, as indústrias siderúrgica, petroquímica e de fertilizantes do polo industrial da cidade não tinham diretrizes quanto ao tratamento dos resíduos, e diversos tipos de produtos foram parar no leito dos rios da região.

“A maior parte deles foi levada pelas águas para alto mar, porém uma parte ficou sedimentada no fundo dos cursos d’água. Note-se que a Vale não é uma das empresas relacionadas à produção desses resíduos, como algumas postagens em redes sociais tentaram associar”, diz a nota.

Atentado terrorista

Atribuída ao “Observatório Direita Brasileira”, uma mensagem diz que uma fonte ligada a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) confirmou que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) deteve, na sexta-feira, na cidade mineira de Itagará um homem venezuelano, “ex-guerrilheiro das FARC”, e um cubano, “conhecido instrutor da Polícia Secreta do Governo Castro”. O texto diz ainda que as autoridades brasileiras apuraram que existiriam “células terroristas” infiltradas em território nacional e que os dois presos eram os responsáveis pelo rompimento da barragem de Brumadinho. A mensagem, no entanto, é #FAKE.

A PRF emitiu uma nota no sábado (26) afirmando que se trata de um boato.

“Informamos que a Polícia Rodoviária Federal não registrou ocorrências envolvendo estrangeiros no estado de Minas Gerais ou quaisquer outras prisões que tenham relação com a tragédia em Brumadinho”, diz a nota.

Já a Abin diz que a informação é “totalmente inverídica”.

“A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) esclarece ser totalmente inverídica a informação, difundida por redes sociais e aplicativos de mensagens, sobre a ocorrência de ataque terrorista contra a barragem de Brumadinho/MG. A Abin não recebeu qualquer relato sobre prisões de venezuelano e cubano na região”, informa a agência, em nota.

Abraço de bombeiro

A foto de um homem sujo de lama abraçando um bombeiro mineiro também foi muito compartilhada nas redes nos últimos dias, como sendo tirada após o desastre em Brumadinho. O próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, foi um dos que compartilharam a imagem em seu perfil no Instagram. A foto, entretanto, foi feita em 2011. O texto que faz referência ao rompimento da barragem da Vale é #FAKE.

Há quase oito anos, um agricultor da cidade de Patos de Minas caiu em uma cisterna de 17 metros de altura e foi socorrido por um militar do Corpo de Bombeiros da cidade. O abraço entre a vítima e o bombeiro após o resgate foi registrado por um fotógrafo da corporação.

Coincidentemente, dois dias antes do rompimento da barragem em Brumadinho, o perfil do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais no Twitter compartilhou um recorte da imagem na rede social.

Animais na lama

O vídeo de uma enchente também tem sido compartilhado como se tivesse sido gravado após o rompimento da barragem da Vale e mostra bois sendo arrastados pela correnteza.

Doações não são necessárias

O porta-voz da Polícia Militar de Minas informou, no domingo (27), que doações de mantimentos não são necessárias por enquanto e que possíveis envios podem causar prejuízo com a perda de alimentos.

O major Flávio Santiago também disse que não há necessidade de voluntários para o resgate das vítimas.

“Não há, no momento, necessidade desse apoio. Vamos deixar esse trabalho para os profissionais, que são treinados para esse tipo de operação que apresenta vários riscos.”

O porta-voz fez um alerta ainda sobre notícias falsas nas redes sociais sobre doação para as vítimas do rompimento da barragem 1 da Mina do Feijão.

Segundo o major Flávio Santiago, circulam no WhatsApp muitas mensagens pedindo doações em dinheiro e informando os dados bancários para depósito.