Colunista Lorena Serpa / O óbito silencioso

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Certamente, você já deve ter ouvido falar, assistiu, ou até mesmo leu em algum veículo de comunicação que a guerra da Síria mata menos pessoas do que os acidentes e imprudências de veículos nas estradas brasileiras.

Essa informação lamentavelmente é real. Agora, e as mortes silenciosas nos hospitais? Pacientes que chegam para receber atendimento e por falta de preparo de seus profissionais, por falta de mão de obra qualificada, falta verbas para a gestão hospitalar, falta de interesse, morrem nos corredores, às vezes na fila de espera, por vezes por falta de material ou até mesmo pela falta de condução para transferência à outra unidade com melhores condições.

Sim, são milhares de milhares de vidas que morrem diariamente dentro dos hospitais aguardando por esperança.

Mas há também os óbitos silenciosos, esses muitas das vezes estão ao nosso redor, pessoas que exteriormente sorriem, até mesmo são prontas em ajudar a outros, mas em seu interior diariamente estão em óbito.

Elas mesmas já não enxergam possibilidades de mudanças, não conseguem perceber os milagres do dia a dia, porque para elas, tudo está de ponta a cabeça, há dor em seu interior, uma voz avassaladora desesperada por sair, mas, o tempo todo tenta exercer o autocontrole para o mundo exterior.

Entretanto, em seus momentos de solidão, onde não existem olhos “examinadores” se punem, se marcam, agridem a si mesmo, o tempo todo em suas mentes há vozes dizendo que suas vidas não são importantes, pessoas também não se importam, suas ações não são boas o suficientes e nunca serão e, assim passam-se os dias.

Talvez você não saiba, mas a cada dia dobra o número de óbitos silenciosos em nosso país, pessoas que hoje estão passando pelas ruas, despercebidas, frequentam os mesmos lugares que vocês, mas em nenhum momento você as observou, ou simplesmente notou e amanhã simplesmente já não estão
aqui.

O que desejo levar você a refletir é que esses pontos destacados se alinham em uma só palavra: SE IMPORTAR! O grande cume em nossos dias é exatamente não olhar o outro como uma pessoa de valor, como um ser de direitos e deveres, que tem sentimentos, emoções, ações e reações.

É não ser indiferente, seja na esfera que for. Precisamos mudar nossa forma de olhar, precisamos passar a enxergar, ir além daquilo que nos está sendo apresentado. As pessoas estão morrendo o tempo todo e nós não estamos percebendo simplesmente porque não nos importamos.

Na medida em que isso mudar, as mortes no trânsito terão seus números diminuídos, as mortes nos hospitais, já não serão pelo descaso, porque uma vida é muito preciosa para não ser salva, os despercebidos passarão a se enxergar como alguém, que tem nome, CPF, aptidões e talentos, que tem voz e é
ouvido.

Nesse dia, convido você a SE IMPORTAR e mudar o ÓBITO dos que nos cercam.

Talvez um simples: oi tudo bem, como está sendo seu dia?
P.S. Transforme o ÓBITO EM VIDA