Corrupção na saúde torna mais letal pandemia da Covid-19 no Rio

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Os números da Covid-19 no Rio de Janeiro são desastrosos. Até ontem, o estado registrava 32.089 infectados e 3.412 mortos. No ranking da pandemia no Brasil, o Rio fica mal.

É o segundo com maior número de mortes, atrás apenas de São Paulo. Mesmo assim, a incidência da doença é maior aqui do que lá (175,9 contra 152,1 por cem mil, na quarta-feira). O vírus também se revela mais letal em território fluminense (10,6% contra 7,5%). E não adianta culpar a falta de testes, já que a escassez de diagnósticos é generalizada.

Evidentemente, há fatores que contribuem para essa escalada de mortes no Rio, como a queda nos índices de isolamento e as condições socioeconômicas da população.

Segundo o IBGE, 22,5% dos cariocas moram em favelas, onde a precária situação sanitária favorece a proliferação da doença. Bairros da Zona Oeste com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) estão entre os que registram maior número de mortes. Mas, a esse cenário, construído ao longo de décadas de negligência do poder público, se junta a corrupção na saúde, criando um ambiente letal numa fase crítica da doença.

Enquanto pessoas morrem na fila de espera por um leito de UTI, os cofres do estado são saqueados em compras emergenciais suspeitas. A Polícia Civil e o Ministério Público investigam indícios de fraude na aquisição de mil respiradores, no valor de R$ 183 milhões.

Apesar de o governo ter adiantado R$ 33 milhões, os aparelhos não chegaram. E fazem falta nos hospitais de campanha, que funcionam sem plena capacidade por falta de equipamentos.

No dia 13, a operação Mercadores do Caos prendeu o empresário Maurício Fontoura, controlador da Arc Fontoura, uma das fornecedoras investigadas. Estão encarcerados também dois ex-subsecretários de Saúde do Rio: Gabriell Neves e Gustavo Borges, que o sucedeu. Em meio ao escândalo, o então secretário, Edmar Santos, foi exonerado.

O Instituto Unir, que administra UPAs no Rio, também está sob investigação. A OS, que havia sido desqualificada para prestar serviços ao estado, foi reabilitada em março pelo governador Wilson Witzel, que desprezou pareceres técnicos contra a decisão. Segundo a operação Favorito, braço da Lava-Jato, o Unir teria como sócio oculto o empresário Mário Peixoto, que está preso.

São conhecidas as dificuldades para se enfrentar a maior pandemia da História em cem anos. Mas elas se tornam mais dramáticas diante de gestões ineptas e fraudulentas, em que o dinheiro público é roubado de forma deslavada, tornando-se ainda mais escasso para o atendimento aos doentes. Os números da Covid-19 no Rio são eloquentes para mostrar que a corrupção pode ser tão letal quanto um vírus para o qual não há vacina ou remédio.

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