Funcionários do hospital de campanha do Maracanã dizem que falta de medicamentos leva pacientes à morte

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A organização social Iabas informou que vai entregar nesta quinta-feira (21) mais 200 leitos do hospital de campanha do Maracanã, na Zona Norte do Rio.

No entanto, como mostrou o RJ1, funcionários que trabalham na unidade dizem que pacientes já morreram pela falta de medicamentos adequados.

“Eu saio do plantão de campanha do Maracanã, entro com o coração aberto, para salvar vidas, e estou estarrecida de ver pessoas morrendo porque faltam medicamentos, pacientes sem sedação devida, pacientes com ventiladores basicamente pifados, médicos pouco treinados para fazer uma entubação. Um campo de guerra e de morte, não de vida”, afirmou uma funcionária.

O Hospital de Campanha do Maracanã foi inaugurado no dia 9 de maio com 120 leitos de enfermaria e 80 de UTI.

Com os novos leitos entregues nesta quinta, ele será o primeiro a ficar completo do total de unidades previstas para serem entregues. Veja no final da reportagem onde e quando serão entregues as próximos hospitais de campanha no RJ.

Segundo a Iabas, o pavilhão que será entregue tem o mesmo modelo do que já está em funcionamento. De acordo com a OS, o funcionamento e transferência de pacientes depende da regulação de vagas da Secretaria Estadual de Saúde.https://audioglobo.globo.com/widget/widget.html?podcast=702&color=C4170C

Faltam medicamentos, dizem funcionários

Os trabalhadores contaram que, depois de 12 dias da abertura, os pacientes que precisam de atendimento não conseguem medicamentos que são fundamentais para manter a pressão arterial e garantir a adaptação ao respirador.

Os funcionários usaram um grupo do Whatsapp com coordenadores para relatar o que estão vivendo. Em uma das mensagens, eles relatam que “Maracanã tá virando matadouro”.

“Pacientes estão morrendo por falta de medicamentos importantes para a sedação. Para a entubação, para ser adaptados à ventilação mecânica. Medicamentos como midazolam, fentanil, rocurônio, propofol. E medicamentos para manter a pressão arterial, como a noradrenalina”, disse a funcionária.

Os profissionais dizem que a falta de organização e de medicamentos adequados têm levado as equipes à situações extremas.

Uma profissional contou que viu o momento em que um paciente precisava ser sedado e entubado, e morreu por falta do medicamento.

“E nesse momento, a medida que a médica ia pedindo os medicamentos para fazer a sedação e a curarização, não tinha. ‘Não tem, doutora; não tem doutora; não tem, doutora’. Vai ter que misturar com outros medicamentos porque não tem. Ficamos numa situação de impotência total. E naquilo de arrumar o medicamento. Ele simplesmente parou, na minha cara. Uma pessoa que estava conversando comigo há 40 minutos atrás. E morreu. Isso é muito duro”, desabafou a funcionária.

O relato é de falta também de materiais.

“Kit de punção profunda, não tem. Só tem dois antibióticos: azitromicina e clavulin. Mesmo assim, chega no período da noite, já tá em falta. Não tem fio de sutura adequado. Não tem seringa de 3 (ml). Falta fralda. Falta de materiais em todo o hospital”, disse outra funcionária.

Falta de salários

Ao profissionais também denunciam falta de salário e vale-transporte.

“Tem muito profissional que não recebeu ainda, que está tendo que tirar do próprio bolso para ir trabalhar. Eles estão perdidos em tudo. Eles não sabem quem contratou e quem contrataram. É uma bagunça infinita”, contou uma trabalhadora.

Outra profissional de saúde completa:

“É uma vergonha, uma falta de respeito, uma falta de responsabilidade. Tanto com o profissional que está ali se doando para cuidar dos seus pacientes. E uma falta de respeito com seus pacientes que estão lá, internados, querendo sobreviver. Muito desumano”, finalizou.

Novos hospitais na Região Metropolitana e interior

A Iabas informou que até o dia 18 de junho vai entregar novas unidades de campanha na Região Metropolitana e no interior do Rio de Janeiro.

  • São Gonçalo – deve ser entregue no dia 27 de maio
  • Nova Iguaçu – previsão de entrega no dia 29 de maio
  • Duque de Caxias – está previsto para o dia 1° de junho
  • Nova Friburgo – unidade da Região Serrana será entregue no dia 7 de junho
  • Campos dos Goytacazes – previsão é para funcionar no dia 12 de junho
  • Casimiro de Abreu – o último da lista tem previsão de começar a funcionar no dia 18 de junho.

O que dizem os envolvidos

Secretaria Estadual de Saúde – informou que vai apurar as denúncias e, se elas forem comprovadas, vai notificar a Iabas. O órgão disse também que criou, esta semana, um comitê de supervisão dos hospitais de campanha para fiscalizar as unidades.

Iabas – a Organização Social não se manifestou sobre as denúncias até a publicação desta reportagem.

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