11 dos 22 criminosos mais procurados do Brasil tiveram auxílio emergencial liberado

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Roubos milionários, tráfico internacional de drogas e até a construção de um túnel. O que casos tão diferentes – tem em comum? A resposta: os nomes de alguns dos envolvidos nesses crimes aparecem na lista dos brasileiros que conseguiram receber o auxílio emergencial do governo, mesmo sendo foragidos da justiça. Ou seja: eles deveriam estar na cadeia, e não poderiam sequer conseguir a liberação das parcelas de 600 reais, dinheiro para enfrentar a crise do coronavírus.

Uma reportagem do Fantástico descobriu a liberação do auxílio emergencial em nome de foragidos a partir de uma informação pública. No site do Ministério da Justiça, existe uma lista com os 22 criminosos mais procurados do Brasil. A maioria, ladrões e traficantes condenados que escaparam da justiça e se esconderam, sem cumprir suas penas.

Com as informações que constam no site do Ministério da Justiça e em processos judiciais, fomos à pagina de consultas do auxílio emergencial. O produtor do fantástico checou – um por um – se os nomes dos 22 bandidos apareciam no cadastro. O resultado: em nome de 11 deles, foi dada a entrada no pedido, e pra esses 11, o dinheiro consta como liberado.

Os “11” correspondem exatamente a metade dos principais foragidos do país que teriam sido beneficiados pelo programa destinado a trabalhadores informais, microempreendedores individuais, autônomos e desempregados, prejudicados pela pandemia.

Entre esses 11, estão alguns dos foragidos mais perigosos e ricos do Brasil. Como por exemplo: Willian Moscardini, o baixinho, acusado de participar do roubo a uma empresa de transporte de valores no Paraguai, em 2017. Os assaltantes explodiram a empresa e fugiram com o equivalente, hoje, a mais de 60 milhões de reais. Moscardini nunca foi preso por esse crime. No sistema da Caixa Econômica Federal consta que a entrada do pedido foi no dia 17 de abril e o beneficio foi aprovado 6 dias depois. Na terça passada, a segunda parcela de 600 reais em nome de Moscardini foi liberada.

Outro foragido que teve o auxílio concedido é Leomar de Oliveira Barbosa, o Léo Playboy. Condenado a 36 anos de prisão, Leomar era o braço direito de Fernandinho Beira Mar. É procurado pela polícia desde 2018.

Também saíram as duas parcelas de R$ 600 do auxílio para o nome deste outro criminoso: Álvaro Daniel Roberto. Apelido: Caipira. Apontado como um dos comparsas do mega traficante colombiano Juan Carlos Ramires Abadia, ele chegou a ser preso em 2013 mas fugiu e é procurado desde então. “Caipira” levava uma vida de milionário. A quadrilha do Caipira tinha pelo menos 70 milhões de reais, somando dinheiro vivo, carros de luxo e imóveis.

Imagine então 110 milhões de reais. Era o que valiam os 780 quilos de ouro roubados no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, no ano passado. Um dos foragidos mais procurados do Brasil e acusado justamente de participar do planejamento do roubo do ouro. Para o nome dele, foram liberadas as duas parcelas do auxílio emergencial. A justiça procura Joselito de Souza desde 2018, quando foi acusado de assaltar uma lotérica. Ou seja, na época do roubo do ouro, ele já era um foragido da justiça. E assim, mesmo tendo dois mandados de prisão em aberto – pela lotérica e pelo ouro – o nome de Joselito foi aprovado no auxílio emergencial.O pedido em nome dele deu entrada no dia 20 de abril.

Além desses casos mostrados até agora, existem muitos outros. O Fantástico teve acesso a um levantamento exclusivo que revela: mais de 27 mil foragidos, em todo o brasil, tiveram o auxilio emergencial aprovado. Só pra primeira parcela, liberada para os nomes que aparecem nessa lista, o governo federal gastou mais de 16 milhões de reais. Esse levantamento é da CGU, a Controladoria-Geral da União. Em São Paulo, por exemplo, o benefício foi liberado para os nomes de 6.879 foragidos.

No Rio de Janeiro, para 825. Só uma investigação poderá dizer quantos desses 27 mil foragidos ficaram com o dinheiro ou tiveram seus dados usados indevidamente por outras pessoas.

Um dos foragidos é Leandro Gonçalves dos Reis, o Bizunga, acusado de tráfico de drogas e roubos. Bizunga é procurado desde 2015: tem oito mandados de prisão em aberto.

Em Roraima, a lista já chegou e as investigações começaram. “Nós temos 88 pessoas sendo procuradas pela justiça. Entre elas, nós temos homicidas, traficantes, estelionatários, estupradores. Iniciamos o trabalho essa semana e já conseguimos prender 12 pessoas. Todas elas falaram que fizeram o cadastro, preencheram com o objetivo de receber o valor”, explica o delegador geral de Roraima, Herbert de Amorim Cardoso.

Nesse levantamento a que o Fantástico teve acesso, também aparecem outras fraudes: golpistas conseguiram o benefício usando os dados de pessoas que já morreram. Mesmo presos, criminosos também embolsaram o auxílio, se cadastrando no programa com os celulares que circulam dentro das cadeias. Ao todo, 58 milhões de brasileiros tiveram o cadastro aprovado e o auxílio liberado.

Do outro lado dessa história, está quem – comprovadamente – tem direito ao benefício, e mesmo assim, teve o cadastro recusado. A Karine, de minas gerais, tem 5 filhos. O auxílio foi negado porque consta no sistema que ela teria emprego formal, mas ela está desempregada desde setembro de 2019, como prova a rescisão do contrato de trabalho.

“Sem esse dinheiro, eu não consigo fazer nada. Até pra comprar as coisas pros meus filhos tá difícil”, conta Karine Souza Oliveira.

Pra se ter uma ideia, só a Defensoria Pública da União já fez mais de 31 mil atendimentos de pessoas que alegam ter o direito mas não receberam o auxílio.

“Quem tem fome, tem pressa. Quem tem fome fica, de fato, indignado quando vê uma injustiça acontecendo. Especialmente quando é uma injustiça que lhe prejudica”, explica Atanasio Lucero Júnior, Defensor Nacional de Direitos Humanos.

Sobre o programa do auxílio emergencial, o defensor afirma: “É uma politica muito importante, muito necessária. Ela precisa de ajustes. Ela precisa ser aprofundada pra, de fato, chegar onde é mais necessária. Pra que essa politica não chegue onde ela não tem que chegar”.

“Tanta gente tá recebendo sem precisar. Eu to precisando tanto e não consigo receber o meu benefício”, lamenta Karine.

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