Arraial do Cabo e Iguaba Grande tem funcionários fantasma da Alerj que recebem mas não trabalham

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Nos últimos seis meses, uma investigação do departamento de material da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) começou a ser feita.

O setor tem 25 servidores, mas muitos deles não aparecem presencialmente. Tem caso de funcionário que vive a mais de 300 quilômetros da Alerj, mas continua recebendo salários sem aparecer para trabalhar.

O departamento de material da Alerj é responsável, entre outras coisas, por receber e analisar propostas de empresas interessadas em se tornarem fornecedoras da Assembleia.

Além de cuidar dos contratos de baixo custo, 25 pessoas estão alocadas neste setor. Mas há apenas dez postos de trabalho, além da sala do diretor. Durante toda a investigação foi difícil é encontrar todas essas pessoas por lá – nem dez foram encontrados.

Em uma das visitas da equipe de reportagem, no dia 10 de março, havia apenas cinco funcionários.

Em outra visita, no dia seguinte, eram quatro. E, uma semana antes, no dia 3 de março, o departamento foi encontrado praticamente vazio: um único servidor estava na sala e não sabia nem dizer quem eram seus colegas de trabalho.

Oscar Antonio da Silva Neto, diretor do departamento de material, não foi encontrado no local em nenhum das visitas feitas pelo RJ2. Ele é diretor do departamento há mais de um ano, desde abril de 2019. Por telefone, Oscar disse que não iria se manifestar sobre as acusações.

Funcionário cedido por prefeitura

O departamento de materiais na Alerj tem 25 funcionários, mas a maior parte recebe salários e não aparece para trabalhar. É o caso de Alvenir Godoi Junior que mora em Bom Jesus de Itabapoana, que fica na divisa do estado do Rio com Espírito Santo, a cinco horas de carro, sem trânsito, do prédio na Alerj onde deveria trabalhar.

Antes da pandemia, o RJ2 o encontrou em casa no fim da tarde e comecinho da noite, ou até de dia mesmo, na hora do almoço, depois de buscar a filha na escola. Nas ruas da região todo mundo conhece Alvanir.

Alvanir Godoi Junior é funcionário da Secretaria de Saúde de Bom Jesus de Itabapoana e está cedido para a Assembleia Legislativa do Rio, mas, durante o período da investigação, ele não apareceu para trabalhar nem na Secretaria nem na Alerj.

O ofício pedindo a cessão do servidor é assinado pelo presidente da Alerj, André Ceciliano, do PT. Alvanir consta em duas folhas de pagamento diferentes.

O procurador do município de Bom jesus afirmou que é comum que servidores cedidos continuem recebendo da prefeitura, porque é o órgão de origem que é o responsável por pagar os salários dele.

“Quando a gente cede, ele fica na folha de pagamento, recebe os benefícios aqui pelo município, e o órgão que recebe depois restitui a cidade. Com a Alerj não foi diferente”, explicou Márcio Egger, procurador-geral de Bom Jesus de Itabapoana.

Encontrado em sua residência pela reportagem, Alvanir disse que está cedido na Alerj, no departamento de material, mas alegou estar em casa por causa de sua mulher, que, segundo ele, passou mal.

“Eu não sou funcionário fantasma”, disse ele.

Treino em academia durante expediente

O departamento de material tem, pelo menos, outros dois servidores cedidos por prefeituras. Um deles é Raphael Regis. Raphael é genro do vereador Mica, do PSDB, de São João de Meriti.

Raphael Régis já foi subsecretário de esportes em São João – na gestão do atual prefeito, doutor João, do Democratas. Depois entrou como servidor da Seap até ir pro departamento de material da Alerj, trabalhar a pedido do deputado Leo Vieira, do PSC.

Régis recebe R$ 4.847 da Alerj, mas sua principal atividade é dentro de um bar, perto da sua casa. No dia da inauguração – uma sexta-feira – ele estava trabalhando no bar – e não na Alerj, como mostram as publicações em sua rede social.

Antes da pandemia, Raphael também tinha uma rotina fora da Alerj em horário de expediente, não era difícil encontrar o servidor em uma academia em um shopping em São João de Meriti. O RJ2 flagou Rapahel treinando na academia em uma segunda-feira, às 15h, no dia 10 de fevereiro.

Assim como muitos colegas, a folha de ponto de Raphael estava vazia. Ele negou as acusações.

Salário de R$ 5 mil e auxílio creche

Paula Teixeira Carvalho, que mora em Nova Iguaçu, recebe quase R$ 5 mil líquidos por mês. Ela também é funcionária cedida da prefeitura da cidade onde mora e a folha de ponto dela também costuma ficar vazia.

Paula é casada com Ricardo Pinheiro – secretário de mobilização do diretório estadual do PT e passa os dias em casa. Em uma das visitas da equipe de reportagem, Paula estava se despendido de amigos que foram para uma reunião na casa dela – às 15h de uma sexta-feira, no dia 6 de março.

Em 10 de julho do ano passado, uma quarta-feira, Paula postou foto no cinema com os filhos – às 15h. No dia 13 de março, Paula e o marido foram abordados pelo RJ2 na saída de casa. Eles alegaram que ela não foi trabalhar por causa de problemas de saúde, mas não explicaram as faltas antigas.

Depois da abordagem, Paula saiu de licença por um mês, mas continuou sem justificar as faltas no flagrante da semana anterior. Além dos R$ 5 mil de salário, ela recebe ainda mais R$ 2.476 líquidos de auxílio escola.

Morador de Arraial do Cabo

Morador de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, e com salário de R$ 20 mil, Luiz Alberto Pombo Bruno é funcionário efetivo e fantasma do departamento de material da Alerj. Em março, ele caminhava pelas ruas de Arraial, encontrando conhecidos e caminhando de forma pacata.

O mesmo alegou estar ausente para fazer exames de coração

Morador de Iguaba Grande

André Luiz Rito Nunes, Irmão do secretário de Obras Paulo Rito, André passa a maior parte do tempo alugando imoveis da família em Iguaba Grande, o mesmo recebe R$: 4.646,00 reais todos os meses da Alerj, sem aparecer por lá, para ser apenas um fantasma.

Em vez de trabalhar André fez uma viaje para Salvado, o mesmo tirou ferias antes de completar 1 anos de trabalho.

Morador de Iguaba Grande | André Luiz Rito

Rodízio durante pandemia

Durante a pandemia, os funcionários do departamento de material entraram em sistema de rodízio, só que na escala tem gente que não aparece nunca pra trabalhar presencialmente. Desde o dia 26 de março, a Alerj implantou o trabalho remoto por causa da pandemia – o chamado home office.

Foi apurado que cada funcionário trabalha uma única vez presencialmente a cada quinze dias.

A determinação é que uma dupla deveria estar presente na sala todo dia. Mas na quarta-feira, dia 17 de junho, só quem estava lá era Fátima Liz Lima Ferreira, que responde pelo departamento na ausência do diretor.

Na quinta, dia 18, foram procurados os funcionários André Luiz Rito e Alvenir Godói, mas somente Fátima estava no local. E mesmo respondendo pelo departamento na ausência do diretor, ela nem sabia quem eram os servidores que foram procurados.

Na sexta-feira (19), Fátima estava lá mais uma vez, acompanhada de um outro funcionário. A reportagem procurou Leonardo Araújo e Paula Carvalho. A chefe teve que buscar uma lista pra descobrir quem eles eram, e disse que estavam de férias.

O que diz a Alerj

De acordo com o Departamento de Material da Alerj, os funcionários estão trabalhando de forma presencial e remota por causa da pandemia do novo coronavírus.

“Eles atuam em escala e em horários definidos pelo chefe do departamento. Em razão da Covid-19, o ato 651/2020 da Mesa Diretora afastou servidores com mais de 60 anos, portadores de doenças crônicas, cardíacas e respiratórias, e que tenham convívio com pessoas de grupos de risco.

É o caso dos funcionários Luiz Alberto Pombo Bruno, Paula Teixeira Carvalho, André Luiz Rito Nunes.

Parte dos funcionários do setor também foi transferida desde o início do ano para a nova sede da Alerj, no edifício Lúcio Costa, dando suporte ao Departamento de Engenharia da Casa.

Sem contar os funcionários que se encontram em férias por força do próprio ato da Mesa Diretora. Ao contrário do que afirma a reportagem, o chefe do departamento trabalha rotineiramente e no dia de seu casamento estava em licença gala,”, dizia a nota.

Fonte> G1.com

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