Reforma da casa de Witzel é retrato do Estado do Rio que agoniza

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Nas últimas semanas, a casa particular do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, vem passando por reformas. No sábado (18) e mesmo no domingo, era intenso o trabalho dos operários. Parece haver pressa.

Se a Justiça não mandá-lo para lugar menos aprazível, é para a residência do bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio, que Witzel voltará quando perder a hospedagem no Palácio Laranjeiras. O processo de impeachment está correndo na Assembleia Legislativa e, segundo publicou o colunista Guilherme Amado no site de ÉPOCA, será concluído em agosto.

Na semana que passou, Witzel divulgou um vídeo em que afirmou: “Eu não sou ladrão”. Quando um mandatário precisa proclamar isso, é porque o seu mandato já acabou.

Os últimos quatro governadores do Rio passaram pela cadeia. Um deles, Sérgio Cabral, continua preso. Ainda assim, impressiona a rapidez da débâcle do juiz que virou político. A fábula do xerife probo terminará em pouco mais de um ano e meio.

Estão presos Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde, e Gabriell Neves, ex-subsecretário. Na sexta 17, o governo fechou os dois hospitais de campanha que ainda funcionavam. Os outros cinco, que receberiam pessoas com a Covid-19, sequer foram inaugurados.

O vice e futuro governador é Cláudio Castro, do mesmo partido, o PSC. É um político inexpressivo, mas não é neófito na política – uma combinação terrível. Elegeu-se vereador em 2016 após ter sido, por 12 anos, chefe de gabinete do deputado estadual Márcio Pacheco. O experiente Pacheco foi denunciado agora em julho, pelo Ministério Público, por prática de “rachadinha”, a mesma de que é suspeito Flávio Bolsonaro. É quando parte dos salários dos funcionários do gabinete vai para o bolso do patrão.

Em cima de Castro podem cair pingos da Operação Catarata, que, como mostrou o jornal O Globo no sábado, foi desencadeada em 2019 para investigar diversos crimes que podem ter sido praticados na Fundação Leão XIII, entidade assistencialista gerida pelo vice-governador.

Os personagens mudam, o enredo é o mesmo. Não existe Novo Normal na política fluminense.

As obras na moradia de Witzel são um retrato do Rio. Reforma-se o privado enquanto o público agoniza. Como no verso de Caetano Veloso baseado no que disse o antropólogo Claude Lévi-Strauss, “aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”. Assim é o Brasil, assim é o Rio, cuja ruína Witzel conseguiu ampliar, como se preciso fosse.