Arraial do Cabo um paraíso ameaçado pela violência

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As águas claras ao longo de 35 quilômetros de belas praias transformaram Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, na capital do mergulho do estado, motivo de orgulho para seus 30.593 habitantes. Porém, décadas de omissão do poder público permitiram a ocupação irregular desenfreada e ação de uma facção que já controla todas as grandes favelas da cidade. Episódios recentes de violência, como a morte de um traficante nas areias da concorrida Prainha, têm deixado o setor de turismo apreensivo. Moradores contam ainda que a milícia, que atua na venda de lotes ilegais em áreas invadidas, agora cobra taxa até de barqueiros que fazem passeios com visitantes.

O medo chega até as trilhas, sempre muito procuradas por turistas. No último dia 19, três amigos percorriam o caminho até o Mirante da Cabocla, que corta o Morro da Coca-Cola, para chegar à Praia do Forno, quando um aviso os fez desistir do passeio. O recado era: “Volte daqui, obrigado”. Ao lado, havia algumas cápsulas de balas. Foi o suficiente para interromper a diversão e, desde então, eles não passam mais por lá.

— Isso tem assustado muita gente. Essa trilha que passa perto do Morro da Coca-Cola virou rota de traficantes — disse um morador, que costumava fazer o caminho.

Morro da Coca-Cola, que separa a Praia do Forno e a Prainha, não é o único que sofre influência do tráfico. Bandidos de uma facção criminosa também atuam nas comunidades do Morro Alto e Bela Vista, assim como num trecho do bairro Figueiras. No último dia 26, traficantes se enfrentaram a tiros na Prainha. Um criminoso morreu, e três turistas e dois moradores ficaram feridos.

Moradores também ficaram assustados há uma semana, quando a Polícia Civil fez uma operação na região para prender 11 traficantes que recebiam irregularmente o auxílio emergencial do governo federal. Dias depois, a polícia voltou a se mobilizar, mas para cumprir dez mandados de busca e apreensão em endereços de funcionários e ex-funcionários da prefeitura de Arraial. O grupo é suspeito de envolvimento com invasores de terras.

Reforço de 60PMs

Para Marco Navega, presidente do Conselho de Turismo da Costa do Sol (Condetur), que reúne 13 municípios da região, esses casos de violência podem afetar o turismo:

— O acontecimento da Prainha trouxe prejuízos para a imagem de Arraial. Um destino não pode nunca passar a sensação de insegurança. Em qualquer ponto turístico do país, há essa preocupação. Quando você transmite uma insegurança, o lugar acaba perdendo visitantes, turistas. Então, essa situação preocupa, sim.

Turismo banca 80% da receita

O turismo é responsável por 80% da receita da cidade. O presidente da Associação Comercial e Turística de Arraial do Cabo, André Hirata, afirmou que os casos de violência são reflexo da chegada de bandidos de outros municípios:

— O aparecimento de representantes de zonas de conflito influenciou na situação atual. Vem muita gente querendo organizar o tráfico aqui. A polícia já esteve vendo isso e melhorou muito. O pessoal que faz turismo está receoso, mas está vindo. Não sofremos queda.

Para conter o avanço da violência, a Polícia Militar enviou à cidade 60 policiais do Batalhão de Choque para reforçar o patrulhamento. Eles estão atuando em trilhas e em outros pontos muito visitados.