Trajetória de Nicette Bruno relembre | O Brasil se despede da famosa Dona Benta do Sitio do Pica-Pau Amarelo

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Em um ano que já acumulou tantas perdas, esta é mais uma notícia que nenhum jornal gostaria de dar. Neste domingo, dia 20 de dezembro, faleceu a atriz Nicette Bruno, aos 87 anos, vítima da covid-19. A poucos dias do Natal, a dor é ainda maior porque a maioria de nós perde alguém que parecia ser da família. Nicette, dentre tantos papéis, foi nossa avó durante o tempo em que viveu Dona Benta, a doce matriarca do ‘Sítio do Pica-pau Amarelo’.

Suely Franco e Nicete

“Nicette Xavier Miessa; na arte, Nicette Bruno”, assim, a atriz se apresenta. “A família da mamãe era Bruno. Como era toda muito voltada para o lado artístico, adotei esse nome. O lado do papai era mais financista, não tinha muito a ver”. Nicette nasceu no dia 7 de janeiro de 1933, em Niterói, no Rio de Janeiro, filha de Eleonor Bruno Xavier, médica e atriz, e Sinésio Campos Xavier, que se dedicava às finanças, ocupando cargo no Tesouro Nacional. Desde muito pequena, adotou a arte como profissão. Iniciou a carreira artística aos 4 anos, na Rádio Guanabara, no programa infantil de Alberto Manes.

“Eu estudei até o segundo clássico, e não cheguei a me formar. A única formação que eu tenho é a de piano, no Conservatório Nacional, além de sempre me dedicar ao estudo do teatro. Na rádio, comecei aos 4 anos, declamando, cantando. Aos 6 anos, fui estudar piano e tocava na própria rádio”.

Cinco anos depois, Nicette ingressou no grupo de teatro da Associação Cristã de Moços, e os palcos entraram de vez na vida da atriz. De lá, foi para o Teatro Universitário, de Jerusa Camões, e o Teatro do Estudante, criado por Paschoal Carlos Magno. Aos 14 anos, já era profissional, contratada pela Companhia Dulcina-Odilon, da atriz Dulcina de Morais. Na companhia, estreou na peça A Filha de Iório, de Gabriele D’Annunzio. Sua atuação como Ornela lhe valeu a medalha de ouro de Atriz Revelação pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

E foi no teatro que Nicette, aos 19 anos, encontrou o amor de toda a sua vida: o também ator Paulo Goulart. Em 1952, a carioca e o paulista de Ribeirão Preto conheceram-se no palco e trocaram os primeiros beijos nos camarins durante os intervalos do espetáculo Senhorita Minha Mãe, de Louis Verneuil, no Teatro de Alumínio, na Praça das Bandeiras, futuro Paço Municipal, em São Paulo. Da união, oficializada em fevereiro 1954, nasceram três filhos: os atores Paulo Goulart Filho, Bárbara Bruno e Beth Goulart. O ator faleceu em 2014, prestes a completar 60 anos de casado.

“Eu e Paulo tínhamos uma afinidade cênica muito grande. Tanto que nos conhecemos em cena, né? Trabalhar juntos era muito bom, porque tínhamos a mesma seriedade, sabíamos separar a nossa relação. Quando estávamos em cena, éramos personagens, não a nossa individualidade”.

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Nicette e Paulo Goulart fundaram em 1953 a companhia Teatro Íntimo de Nicette Bruno, o Tinb, que contou com a participação de atores como Tônia Carrero, Rubens de Falco e Walmor Chagas. “Fizemos uma série de apresentações no Tinb, onde também estreou o Antunes Filho, como diretor da peça Weekend, do Noël Coward”, relembra. Ainda durante as décadas de 1950 e 1960, Nicette integrou praticamente todas as principais companhias de teatro do país, sendo reconhecida e premiada. Mesmo depois de embarcar na televisão, a atriz nunca deixou os palcos.

A ERA DA TELEVISÃO AO VIVO

Nicette Bruno também foi uma pioneira da televisão. Estreou na TV Tupi tão logo ela foi inaugurada, em 1950, fazendo participações em recitais e teleteatros, como em A Corda, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Também na emissora, a atriz atuou na primeira adaptação do Sítio do Picapau Amarelo, feita por Tatiana Belinky e Júlio Gouveia e exibida de 1952 a 1962. Anos depois, de 2001 a 2004, viveria a Dona Benta na segunda versão do seriado produzida pela Globo. Após a experiência na TV Tupi, trabalhou no programa Dona Jandira em Busca da Felicidade (1953), da TV Continental, junto com Paulo Goulart. “Tudo isso era a época de televisão ao vivo, não havia ainda o videoteipe. Nós fazíamos televisão como fazíamos teatro. Era um teatro televisionado. Com o videoteipe, começou-se a se criar uma nova linguagem de atuação em televisão”.

Sua primeira telenovela foi Os Fantoches (1967), de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior. A atriz participou ainda de novelas de grande sucesso na extinta Tupi, entre as quais Meu Pé de Laranja Lima (1970), de Ivani Ribeiro, a partir do romance de José Mauro de Vasconcelos; Éramos Seis (1977), de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, uma adaptação do livro de Maria José Dupré; e a inacabada Como Salvar Meu Casamento (1979), de Edy Lima, Ney Marcondes e Carlos Lombardi, a última produzida pela emissora.

“Foi triste. Durante um ano, sofremos muito, mas mantivemos o entusiasmo. Isso faz parte do artista brasileiro: ele não sucumbe, não entrega os pontos facilmente.”

Especial de Natal do Sítio – A turma do Sítio de Dona Benta ( Nicete Bruno ) com o anjinho ( Pedro Antônio Calloni )

Entre 2001 a 2004, trabalhou na nova versão de um dos maiores sucessos da televisão brasileira, o Sítio do Picapau Amarelo.

“O diretor Roberto Talma queria que a Dona Benta tivesse uma identificação com a criança de hoje, mas preservando a essência da personagem. Achei muito interessante a ideia de ela se comunicar com o Pedrinho via internet, ao mesmo tempo dizendo ao neto: ‘Olha, tem tempo que você não me escreve uma carta ou um bilhete. Não devemos nos comunicar só por meio do computador. A emoção da escrita é muito grande, e eu quero sentir essa sensação’. Fiquei conhecida pelo público como Dona Benta”.