Colunista Lorena Serpa | Isso é amor?

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Hoje gostaria de convidar você querido(a) leitor(a), a pensar de forma desconstruída sobre relacionamentos, mas especificamente nos perguntando porque tantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos, ou porque tantas mulheres não conseguem se enxergar em um relacionamento abusivo?

Talvez essa não seja a sua realidade, mas certamente você conhece alguém que vive em um relacionamento abusivo, e nosso desejo é que essa reflexão descortine o olhar e levante pessoas que possam ser ferramentas de cura, de libertação de tantas e tantas mulheres que precisam de socorro, mas não sabem como pedir.

É muito provável que você conheça alguém que já esteve – ou que está – em um relacionamento abusivo. Relações em que há agressões físicas, verbais ou psicológicas são, infelizmente, algo muito comum. Apesar de o tema estar sendo mais amplamente discutido na mídia, e de aquele papo antigo de não “meter a colher” em briga de casal estar finalmente sendo deixado de lado, ainda é muito comum que se culpe a vítima pela situação. Afinal, pensam muitas pessoas, por que as mulheres ainda “deixam” que isso aconteça? Por que “submetem” a isso em vez de simplesmente irem embora?

Observe essas frases:

“Não era amor quando me afastei de todos os meus amigos para estar numa relação.”

“Não era amor quando eu tinha que me desculpar por algo que eu não tinha culpa só para que as coisas ficassem ‘bem’.”

“Não era amor quando ele me dizia que eu tinha sorte dele me amar tanto porque ninguém me suportaria.”

“Não era amor quando ele dizia que eu não era boa o suficiente em determinadas atividades, fazendo com que eu cada vez mais acreditasse menos em mim.”

“Não era amor quando ele me ligava de hora em hora para saber onde estava e com quem estava.”

“Não era amor quando ele passava hora estudando como se fosse a pessoa mais inteligente do mundo e esperava pelo emprego perfeito, enquanto eu trabalhava para pagar as contas e dar conta de tudo e ainda assim, ele era sempre quem se sobressaia, afinal, ele é o “provedor.”

Essas são algumas frases de pessoas que estavam em relações abusivas e poderíamos colocar muito mais, no entanto, certamente sua atenção já está fitada aqui nessas linhas e com isso, nosso desejo é que você não se esquive, mas reflita, analise cada situação, cada palavra dita, para posicionamento, cada anulação pela qual tem passado, pensando estar vivendo um conto de “fadas”.

Mas há outras razões, menos visíveis, que mantêm a vítima presa a essa relação:

– o parceiro não é violento o tempo todo, mas também se mostra gentil e sensível;

– o parceiro se mostra arrependido e a vítima fica com pena;

– o parceiro diz que vai procurar tratamento e a vítima cria esperanças de que ele vá mudar;

– o parceiro menospreza a vítima e destrói a sua autoconfiança, o que faz com que ela se sinta presa a essa situação e tenha vergonha de pedir ajuda.

Em um relacionamento abusivo, existe pelo menos um destes tipos de violência: verbal, emocional, psicológica, física, sexual, financeira e tecnológica (esta vai desde controle velado das redes sociais da vítima até insistência em obter senhas pessoais, controle de conversas, curtidas e amizades online).

Ele tira o poder social dessa mulher principalmente com pessoas que teriam condições de alertá-la. E isso pode acontecer de forma sutil, como comprando propositalmente uma casa lá do outro lado da cidade, ou falando que as amigas não prestam. As coisas vão se escalando e a última etapa, em alguns casos, é o feminicídio, ou seja, quando essa mulher é morta.

A psicóloga Psicóloga Pollyanna Abreu aponta que, nessas relações, o outro se torna o centro da sua vida e seu comportamento é moldado com referência ao que ele espera de você. O resultado é que isso interfere na sua relação com a família, amigos, trabalho e, principalmente, na forma com que você se enxerga.

Mas só há momentos de agressão nesse tipo de relacionamento? Não. “Mas até as partes que as pessoas costumam chamar de partes boas pode ser uma compensação ou manipulação pós abuso. É uma promessa de mudança que nunca vai vir, uma estratégia.”

São três as fases presentes nessas relações, e uma delas é exatamente o que a especialista chama de lua de mel.

A primeira fase, segundo ela, é a tensão. “É quando a mulher vai cedendo: não corta o cabelo porque ele disse pra não cortar, troca a roupa que ele pediu, vai perdendo a identidade.”

A segunda fase é a da crise. “É quando tem briga e mais escalonamento da violência, é quando ela é xingada ou sofre abuso físico ou sexual.”

A terceira fase é a lua de mel. “São conversas íntimas, sexo intenso, é quando ele promete que vai mudar.”

Existem ainda outros comportamentos ao qual identificamos como relacionamento dominador, onde o parceiro o tempo todo está “vigiando” através de ligações e mensagem onde a mulher está, com quem está e por que ali está. Há a necessidade de se apresentar na frente das pessoas como o bom moço, sempre com sorriso, brincadeiras, aconselhamentos, mas sua postura está a todo instante reprimindo a mulher, onde suas colocações nunca são pertinentes, seus desejos e vontades sempre ficam sem segundo plano, porque ele precisa estar bem aos olhos de todos.

Fazer com que a mulher se sinta totalmente dependente daquele parceiro, ainda que seja ela a providenciar tudo, mas há uma doce ilusão que essa mulher não se veja “feliz” com outra pessoa, porque no fundo ele é uma “boa” pessoa.

Além disso, o abuso financeiro é um dos principais motivos para o alto número de violência contra a mulher. Sem renda própria elas são manipuladas, humilhadas, controladas e até agredidas física e sexualmente. Isso não quer dizer que mulheres independentes financeiramente também não entrem em relacionamentos abusivos, mas a dependência financeira dificulta a saída desses relacionamentos.

O abuso financeiro pode começar de forma sutil, com o parceiro tomando as decisões financeiras pela mulher, e chegar a situações em que ele pega o cartão de crédito, pergunta onde ela iria morar se eles se separassem, diz que ela não teria dinheiro para pagar um advogado.

Abreu, afirma que desde crianças meninos e meninas aprendem que violência pode significar amor. “A gente aprende desde pequena que abuso é amor. O menininho bate em você e algum adulto diz que ele bateu em você porque ele gosta de você. Você escuta isso desde pequena.”

Como sair de um relacionamento abusivo?

Segundo a Psicóloga Abreu: é “quase impossível” sair de um relacionamento abusivo sem algum tipo de intervenção social: seja uma amiga, uma terapia ou uma vizinha que chamou a polícia.

“A mesma sociedade que cria solo fértil para um relacionamento abusivo é a que culpa essa mulher porque ela não consegue sair desse relacionamento. Falta ajuda desde o atendimento psicológico, passando por polícia e pela aplicação da lei.”

O que não ninguém deve fazer, é colocar mais culpa nessa mulher, como perguntar o que ela fez para isso acontecer. Nem mesmo dizer para ela terminar o relacionamento na hora é recomendado. “Não exija que essa mulher termine se ela não tiver forte o suficiente. Exigir o término vai ter efeito contrário: ela vai se sentir pouco acolhida, cobrada e retomar a relação ainda mais forte com o abusador porque não encontrou apoio fora da relação.”

“Não julgar, não cobrar, não pressionar, oferecer ajuda do coração e saber que quando a gente ajuda uma mulher nesse contexto pode ser que o tempo dela não tenha chegado ainda, mas saiba que você plantou uma sementinha e ela saberá que pode recorrer a você.” O apoio continuado normalmente vem de amigas ou familiares mais próximas.

Quem ama “mete a colher”, quem ama alerta, quem ama quer ver o outro feliz e não como um pássaro dentro de uma gaiola.

Se você pensou em alguém fazendo essa leitura, certamente essa pessoa precise de ajuda e você pode ser uma ferramenta para mudar a história, ou o final dessa história!

Colaboração: psicóloga Pollyanna Abreu

Lorena Serpa

Pedagoga

Especialista em MBA Gestão Empresarial

Estudante de Psicopedagogia Clínica e

Psicologia Social