Invasões do crime organizado no ‘Minha casa, minha vida’ se alastram por 24 cidades do Rio

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Na noite de 14 de dezembro passado, Alexsandro Lopes de Lima, de 36 anos, morador do Residencial Carlos Marighella, condomínio do programa ‘Minha casa, minha vida’ em Maricá, saiu de seu apartamento para ajudar um vizinho a consertar o carro. No pátio, foi capturado por traficantes. Os bandidos desconfiavam que Lima fosse informante da milícia que disputa com o tráfico o domínio da região.

Ele foi espancado e executado a tiros. Seu corpo foi encontrado em um carro incinerado a poucos metros da portaria. Na semana seguinte, ocupantes de um veículo que passava em frente ao conjunto gritaram pela janela: “Isso não vai ficar assim! Vamos voltar!”. A “resposta” veio no último dia 28: milicianos entraram no condomínio atirando de dentro de um carro e mataram três pessoas.

A guerra pelo controle do Residencial Carlos Marighella é o retrato do avanço do crime organizado em condomínios em empreendimentos do ‘Minha casa, minha vida’ por todo estado.

Um levantamento feito pelo site com base em processos judiciais, registros de ocorrência e dados do Disque Denúncia revela que invasões do tráfico e da milícia em condomínios do programa federal se espalham por 24 cidades fluminenses. Além de guerras de quadrilhas rivais dentro de pelo menos três conjuntos, foram detectados casos de expulsões de moradores de seus apartamentos por traficantes apenas dois meses depois da inauguração e realização de bailes funk com aglomerações, venda de drogas e desfile de armas nas áreas comuns dos condomínios.

A chacina no Residencial Carlos Marighella em fevereiro não é a primeira registrada no local: em março de 2018, cinco jovens foram executados no condomínio. A Polícia Civil concluiu que as vítimas foram assassinadas pelo grupo paramilitar que, à época, dominava o conjunto. De lá para cá, o tráfico tomou o controle do conjunto, e os paramilitares tentam voltar. A investeigação é da DH de Niterói e São Gonçalo.

Do outro lado da Baía de Guanabara, milícia e tráfico disputam outro condomínio à bala: o Trio de Ouro, em Meriti. Na madrugada do último dia 16, traficantes da favela Gogó da Ema, em Belford Roxo, entraram atirando no conjunto, que é dominado pelos paramilitares. Onze pessoas que estavam bebendo num bar foram baleadas; duas delas morreram. De suas janelas, os moradores registraram as cenas. Numa foto, é possível ver o grupo de 20 invasores, alguns portando fuzis, andando pelo condomínio. Depois do ataque, a milícia decretou toque de recolher.

Nos condomínios Parque Araras e Parque Bem-te-vis, no Jockey, em São Gonçalo, um tiroteio aconteceu no meio de um baile funk no pátio dos conjuntos em julho passado. Segundo um relatório do 7º BPM (São Gonçalo), traficantes do Complexo da Alma, de facção rival à que ocupa os condomínios, invadiram o local no meio do evento para matar opositores. Houve tiroteio e correria, mas não há registro de mortos. Os bailes funk com venda de drogas seguem acontecendo no local, no Vista Alegre, no Mundel, também em São Gonçalo, e no Carlos Alberto Soares de Freitas, em Maricá.

Criminosos invadem conjunto em São João de Meriti
Criminosos invadem conjunto em São João de Meriti Foto: Reprodução

Mortes bárbaras e a proibição de entrar em casa

Em Cabo Frio, uma investigação da Polícia Civil revelou que um casal de moradores do Residencial Monte Carlo foi torturado e assassinado a facadas num matagal nos fundos do condomínio pelos traficantes locais, em meados de 2019. O filho do casal, de 9 anos, presenciou os pais serem serem levados de casa, agredidos com coronhadas, socos e joelhadas diante da suspeita dos criminosos de que eles seriam informantes de uma facção rival — só porque a família, antes de se mudar para o conjunto, morava numa área dominada pelos opositores. O inquérito, que culminou na condenação de 12 traficantes que agiam no condomínio, identificou outras nove famílias que perderam suas casas para o tráfico.

Já em Barra Mansa, os traficantes expulsaram moradores do condomínio Paraíso de Cima apenas um mês depois de sua inauguração. Em 14 de dezembro do ano passado, numa cerimônia que contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro, as chaves dos apartamentos começaram a ser entregues. Duas semanas depois, moradores começaram a procurar a delegacia do município para denunciar que estavam proibidos de entrar em suas casas por ordem do tráfico. No dia 8 de fevereiro, a Polícia Civil fez uma operação no local: três pessoas foram presas em flagrante por tráfico e outras 60 foram conduzidas para a delegacia, já que ocupavam os imóveis ilegalmente.

Polícia fez operação em conjunto em Barra mansa
Polícia fez operação em conjunto em Barra mansa Foto: Divulgação

Os demais municípios que registraram presença de tráfico ou milícia são: Resende, Volta Redonda e Barra do Piraí, no Sul Fluminense; Angra dos Reis, na Costa Verde; Nova Friburgo e Petrópolis, na Região Serrana; Rio das Ostras, São Pedro da Aldeia e Araruama, na Região dos Lagos; Macaé, no Norte Fluminense; e Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Queimados, Itaguaí, Niterói, Tanguá, Itaboraí e a capital, na Região Metropolitana. Do início de 2020 até o último dia 11, o Disque Denúncia (2533-1177) recebeu 674 denúncias sobre a presença de criminosos em unidades do ‘Minha casa, minha vida’. São Gonçalo lidera o ranking de relatos, seguido por Rio e Maricá.

O Rlagos questionou os ministérios da Justiça, do Desenvolvimento Regional e a Caixa Econômica sobre iniciativas para combater o avanço do crime sobre os condomínios, mas não recebeu resposta. Já a PM alegou que “não há planos ou projetos para criação de bases fixas dentro de unidades do ‘Minha casa, minha vida’ ou qualquer outro conglomerado habitacional”. No entanto, segundo a corporação, “as unidades operacionais estão orientadas em empregar os esforços de seu efetivo em um policiamento ostensivo e preventivo com o objetivo de coibir práticas delituosas”.