Tiro na cabecinha de Witzel saiu pela culatra

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RIO — Chega ao fim, nesta sexta-feira, o mandato mais curto de um governador no Rio de Janeiro. Eleito em 2018, com 4.675.355 votos, contra 3.134.400 de Eduardo Paes — hoje prefeito da capital fluminense —, Wilson Witzel, que nas prévias das eleições não aparecia sequer entre os três primeiros em intenção de votos, teve uma ascensão meteórica às vésperas do pleito, contrariando todas as pesquisas.

Hoje, após decisão do Tribunal Especial Misto (TEM), sai de cena como o primeiro chefe do Executivo estadual a sofrer um impeachment na História, pouco mais de dois anos após o início do seu governo, condenado por crime de responsabilidade. Witzel deixa o poder sob acusações de participação em desvios na saúde, como rival político de Jair Bolsonaro e tendo até, recentemente, comparado sua situação à do ex-presidente Lula, ao falar em injustiça e perseguição.

Escolhido de última hora por grande parte dos eleitores do então candidato à presidência Jair Bolsonaro, por ter o apoio do senador Flávio Bolsonaro, com um discurso politicamente alinhado ao dele, e por ter participado de episódios emblemátocos, como o da quebra da placa em homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL), Witzel levantou bandeiras como as do combate à corrupção, sinal verde para ações ostensivas em favelas contra o tráfico de drogas e comprou briga contra discursos ligados aos direitos humanos.

Audiência pública com o então juiz federal Wilson Witzel com a presença dos indígenas que habitavam na aldeia Maracanã Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo - 24/03/2013
Audiência pública com o então juiz federal Wilson Witzel com a presença dos indígenas que habitavam na aldeia Maracanã Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo – 24/03/2013
Audiência pública com o então juiz federal Wilson Witzel com a presença dos indígenas que habitavam na aldeia Maracanã Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo - 24/03/2013
Audiência pública com o então juiz federal Wilson Witzel com a presença dos indígenas que habitavam na aldeia Maracanã Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo – 24/03/2013
Wilson Witzel abriu mão da carreira de juiz federal para se lançar candidato ao Governo do Estado pela coligação (PSC/PROS) Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo - 09/10/2018
Wilson Witzel abriu mão da carreira de juiz federal para se lançar candidato ao Governo do Estado pela coligação (PSC/PROS) Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 09/10/2018
Durante a campanha, em outubro de 2018, Wilson Witzel (PSC) participou do momento em que Daniel Silveira (PSL), ao lado de Rodrigo Amorim (PSL), eleito deputado estadual, quebra a placa de rua em homenagem à vereadora assassinada do PSOL, Marielle Franco Foto: Reprodução
Durante a campanha, em outubro de 2018, Wilson Witzel (PSC) participou do momento em que Daniel Silveira (PSL), ao lado de Rodrigo Amorim (PSL), eleito deputado estadual, quebra a placa de rua em homenagem à vereadora assassinada do PSOL, Marielle Franco Foto: Reprodução
Antes de assumir o cargo de governador, Wilson Witzel mantinha laço político com o presidente eleito Jair Bolsonaro, com aparições públicas como a inauguração da III escola da PM no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias. A cerimônia aconteceu na presença do senador Flávio Bolsonaro e do prefeito de Caxias, Washington Reis Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo - 17/12/2018
Antes de assumir o cargo de governador, Wilson Witzel mantinha laço político com o presidente eleito Jair Bolsonaro, com aparições públicas como a inauguração da III escola da PM no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias. A cerimônia aconteceu na presença do senador Flávio Bolsonaro e do prefeito de Caxias, Washington Reis Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 17/12/2018
Witzel é batizado em igreja evangélica perto do Complexo do Alemão, no Rio, em meio ao processo de impeachment Foto: Reprodução / Agência O Globo - 02/12/2020
Witzel é batizado em igreja evangélica perto do Complexo do Alemão, no Rio, em meio ao processo de impeachment Foto: Reprodução / Agência O Globo – 02/12/2020
Garçom chega com uísque, suco, salgadinhos e queijos sortidos enquanto Witzel acende um charuto, no Palácio Laranjeiras, onde viveu de agosto a novembro de 2020, mesmo afastado do cargo de governador Foto: Chico Otavio / Agência O Globo - 01/10/2020
Garçom chega com uísque, suco, salgadinhos e queijos sortidos enquanto Witzel acende um charuto, no Palácio Laranjeiras, onde viveu de agosto a novembro de 2020, mesmo afastado do cargo de governador Foto: Chico Otavio / Agência O Globo – 01/10/2020
Witzel exibe livro de cabeceira, “Bolsonaro, o mito e o sintoma”, de Rubens Casara, enquanto ainda vivia no Palácio Laranjeiras Foto: Chico Otavio / Agência O Globo - 01/10/2020
Witzel exibe livro de cabeceira, “Bolsonaro, o mito e o sintoma”, de Rubens Casara, enquanto ainda vivia no Palácio Laranjeiras Foto: Chico Otavio / Agência O Globo – 01/10/2020
O governador do Rio, em 26 de maio. A Alerj, em 10 de junho, abriu processo para destituir o governador Wilson Witzel do cargo, duas semanas após sua residência ter sido invadida por suspeita de fraude no combate ao novo coronavírus Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo -26/05/2020
O governador do Rio, em 26 de maio. A Alerj, em 10 de junho, abriu processo para destituir o governador Wilson Witzel do cargo, duas semanas após sua residência ter sido invadida por suspeita de fraude no combate ao novo coronavírus Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo -26/05/2020
Witzel durante a posse do novo secretário de Saúde, Fernando Ferry, em maio, após exoneração de Edmar Santos, alvo de denúncias de fraude na compra de respiradores Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo - 19/05/2020
Witzel durante a posse do novo secretário de Saúde, Fernando Ferry, em maio, após exoneração de Edmar Santos, alvo de denúncias de fraude na compra de respiradores Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo – 19/05/2020
Marcelo Bretas e Wilson Witzel durante uma viagem de avião, em abril de 2019. Em maio deste ano, juiz da Lava-Jato no estado, reagiu às críticas do governador, e ex-aliado, sobre a condução do inquérito que investiga fraudes na Saúde Foto: Reprodução / Instagram
Marcelo Bretas e Wilson Witzel durante uma viagem de avião, em abril de 2019. Em maio deste ano, juiz da Lava-Jato no estado, reagiu às críticas do governador, e ex-aliado, sobre a condução do inquérito que investiga fraudes na Saúde Foto: Reprodução / Instagram
Infectado, governador usou sua rede social para dizer que testou positivo para o novo coronavírus: "A doença não
escolhe ninguém e
o contágio é rápido" Foto: Reprodução / Instagram - 14/04/2020
Infectado, governador usou sua rede social para dizer que testou positivo para o novo coronavírus: “A doença não escolhe ninguém e o contágio é rápido” Foto: Reprodução / Instagram – 14/04/2020
Witzel, no Palácio Guanabara, apresenta ao lado de Edmar Santos, então secretário de Estado de Saúde, estratégias de combate à Covid-19 Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo - 07/04/2020
Witzel, no Palácio Guanabara, apresenta ao lado de Edmar Santos, então secretário de Estado de Saúde, estratégias de combate à Covid-19 Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo – 07/04/2020
No carnaval, o governador Wilson Witzel beijas as mãos de Sabrina Sato durante desfile da Vila Isabel na Marquês de Sapucaí Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo - 24/02/2020
No carnaval, o governador Wilson Witzel beijas as mãos de Sabrina Sato durante desfile da Vila Isabel na Marquês de Sapucaí Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo – 24/02/2020
O governador Wilson Witzel usou uniforme de sniper do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar, para treinar a pontaria Foto: Redes sociais
O governador Wilson Witzel usou uniforme de sniper do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar, para treinar a pontaria Foto: Redes sociais
No 2º dia do ano, Witzel foi ao Palácio Guanabara para concluir a cerimônia de transmissão de posse; o novo governador fez questão de pedir à transição a confecção de uma faixa não-oficial, que foi entregue por Dornelles Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo - 02/01/2019
No 2º dia do ano, Witzel foi ao Palácio Guanabara para concluir a cerimônia de transmissão de posse; o novo governador fez questão de pedir à transição a confecção de uma faixa não-oficial, que foi entregue por Dornelles Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo – 02/01/2019
Antes do ano completar a primeira semana, a primeira morte de policial militar no Estado do Rio já comovia o governador, que fez questão de ir ao enterro, no Jardim da Saudade, em Sulacap Foto: Marcelo Regua / Agência O Globo
Antes do ano completar a primeira semana, a primeira morte de policial militar no Estado do Rio já comovia o governador, que fez questão de ir ao enterro, no Jardim da Saudade, em Sulacap Foto: Marcelo Regua / Agência O Globo
Durante homenagem a Ronaldinho Gaúcho, no Maracanã, no dia 8 de janeiro, quando o craque colocou seus pés na calçada da fama do estádio, lá estava Witzel de novo; na foto, ele finge engraxar as chuteiras do ex-jogador, comemoração comum no mundo do futebol Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Durante homenagem a Ronaldinho Gaúcho, no Maracanã, no dia 8 de janeiro, quando o craque colocou seus pés na calçada da fama do estádio, lá estava Witzel de novo; na foto, ele finge engraxar as chuteiras do ex-jogador, comemoração comum no mundo do futebol Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Wilson Witzel reza durante a missa pelos 186 anos de Nova Iguaçu. Durante a celebração, governador Witzel comungou e ainda participou do ritual do ofertório. Foto: Macos Nunes / Agência O Globo - 15/01/2019
Wilson Witzel reza durante a missa pelos 186 anos de Nova Iguaçu. Durante a celebração, governador Witzel comungou e ainda participou do ritual do ofertório. Foto: Macos Nunes / Agência O Globo – 15/01/2019
Após a cerimônia na sede do Bope, Witzel ainda recebeu um quadro de sua face, feito com cápsulas Foto: Carlos Magno / Divulgação - 14/01/2019
Após a cerimônia na sede do Bope, Witzel ainda recebeu um quadro de sua face, feito com cápsulas Foto: Carlos Magno / Divulgação – 14/01/2019

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Governador Wilson Witzel na entrega ambulâncias Corpo de Bombeiro e recebe faixa simbólica do comandante da corporação Foto: Carlos Magno / Divulgação - 18/01/2019
Governador Wilson Witzel na entrega ambulâncias Corpo de Bombeiro e recebe faixa simbólica do comandante da corporação Foto: Carlos Magno / Divulgação – 18/01/2019
Com parte de fantasia que reproduz arma, governador posa ao lado de componente no desfile da São Clemente Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Com parte de fantasia que reproduz arma, governador posa ao lado de componente no desfile da São Clemente Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
No Seminário contra a corrupção, no Museu do Amanhã, com as participações do presidente do Supremo Dias Toffoli, o governador Wilson Witzel, e prefeito Marcelo Crivella não se falaram o tempo todo. Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo - 25/03/2019
No Seminário contra a corrupção, no Museu do Amanhã, com as participações do presidente do Supremo Dias Toffoli, o governador Wilson Witzel, e prefeito Marcelo Crivella não se falaram o tempo todo. Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo – 25/03/2019
Witzel posa ao lado de móvel com sua foto oficial e do presidente Jair Bolsonaro, no Palácio Guanabara Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo - 28/03/2019
Witzel posa ao lado de móvel com sua foto oficial e do presidente Jair Bolsonaro, no Palácio Guanabara Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo – 28/03/2019
No Palácio Guanabara, o governador Wilson Witzel posa empunhando arma apreendida pelo Batalhão de Choque Foto: Reprodução
No Palácio Guanabara, o governador Wilson Witzel posa empunhando arma apreendida pelo Batalhão de Choque Foto: Reprodução

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O começo do fim. Wilson Witzel discursa ao lado de Edmar Santos durante coletiva de imprensa. O então secretário de Saúde se tornaria delator de um grande esquema de corrupção na gestão da pandemia do Rio, que culminou no afastamento do governador eleito em 2018 Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo - 07/04/2020
O começo do fim. Wilson Witzel discursa ao lado de Edmar Santos durante coletiva de imprensa. O então secretário de Saúde se tornaria delator de um grande esquema de corrupção na gestão da pandemia do Rio, que culminou no afastamento do governador eleito em 2018 Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo – 07/04/2020
Com sessões virtuais desde o fim de março por conta da pandemia de Covid-19, a Alerj teve que fazer adaptações para a sessão presencial de instalação da omissão do impeachment do governador Wilson Witzel, realizana nesta quinta-feira Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo - 18/06/2020
Com sessões virtuais desde o fim de março por conta da pandemia de Covid-19, a Alerj teve que fazer adaptações para a sessão presencial de instalação da omissão do impeachment do governador Wilson Witzel, realizana nesta quinta-feira Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo – 18/06/2020
O governador afastado Wilson Witzen senta no banco dos réus, durante sessão presencial do Tribunal Especial Misto (TEM) em que ele e o ex-secretário de Saúde e delator Edmar Santos foram interrogados, no Tribunal de Justiça do Rio Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo - 07/04/2021
O governador afastado Wilson Witzen senta no banco dos réus, durante sessão presencial do Tribunal Especial Misto (TEM) em que ele e o ex-secretário de Saúde e delator Edmar Santos foram interrogados, no Tribunal de Justiça do Rio Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo – 07/04/2021

O pedido de abertura de impeachment contra Witzel, protocolado pelos deputados Luiz Paulo (Cidadania) e Lucinha (PSDB), e aceito pela Alerj em junho do ano passado, baseou-se, sobretudo, nas investigações do Ministério Público Federal (MPF) que culminaram nas operações Placebo e Favorito juntamente com a Polícia Federal, e que tiveram como desdobramento a Operação Tris in Idem, ação que motivou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) a afastar o governador do cargo, por suspeitas de corrupção na saúde, em agosto do ano passado.

As investigações contaram ainda com informações dadas pelo ex-secretário de Saúde Edmar Santos, em delação premiada. A denúncia do MPF aponta que Witzel era parte central de um esquema que envolvia empresários e o líder do seu partido (PSC), Pastor Everaldo, e que o então governador teria recebido, através do escritório de advocacia da primeira-dama, Helena Witzel, mais de R$ 554 mil por favorecimentos, como, por exemplo, a revogação da desqualificação da Organização Social (OS) Instituto Unir Saúde, que, dizem os investigadores, tinha como sócio oculto Mário Peixoto. No ofício de autoria de Luiz Paulo e Lucinha, entregue à Alerj, também são levadas em conta suspeitas de improbidade administrativa e mau uso do dinheiro público em meio à pandemia da Covid-19. Witzel nega todas as acusações.

Faixa confeccionada e adereços foram destaque dos primeiros dias de governo

Logo ao tomar posse, Witzel chamou atenção por fazer questão de receber, das mãos do antecessor, Francisco Dornelles, uma faixa de governador do estado, item que nunca fez parte do rito. À época, O GLOBO apurou que o governador recém-empossado havia pedido para que o adereço fosse confeccionado. Em seguida, ele ainda utilizaria outras versões estilizadas da faixa nas posses dos secretários de Polícia Militar, coronel Rogério Figueredo (faixa preto e branca), e numa cerimônia de entrega de ambulâncias no Corpo de Bombeiros (faixa vermelha). A faixa “presidencial” de governador fez sucesso, inclusive, entre foliões no carnaval daquele ano, sendo vendida na Saara. Durante seus pouco mais de dois anos à frente do Palácio Guanabara, Witzel também fazia questão de vestir, durante as agendas, coletes ou camisetas personalizados, como, por exemplo, do programa Segurança Presente, da Def