Manda foto do pezinho: entenda mais sobre o fetiche por pés

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Se você “existe” na internet, alguma vez já se deparou com uma pessoa que tem atração por pés, seja recebendo pedidos de um anônimo para ver uma foto ou apenas caindo de paraquedas em algum papo virtual sobre o interesse por pezinhos.

O negócio ficou tão comum que a figura da pessoa que pede para desconhecidos fotos de pés virou até meme. Mas, por que isso acontece? E por que…pés?

Indivíduos que adoram pés existem aos montes porque a podolatria é um dos fetiches mais comuns do mundo. Em 2006, o pesquisador Dr. G. Scorolli, da Universidade de Bologna, liderou um dos principais estudos sobre a presença de fetiches on-line, analisando 381 comunidades frequentadas por pelo menos 5 mil usuários.

O estudo detectou que a atração por uma parte do corpo é o fetiche mais presente, representando 30% dos fetichistas, que majoritariamente se interessam por pés e objetos relacionados a eles como sapatos, meias, etc.

O tema virou o motivo de várias pessoas comercializarem “packs” (pacotes com imagens de pé). Foi assim que a estudante Alice*, 23, de São Paulo (SP), soube que um fetiche que ela curtia podia virar uma fonte de renda extra.

“Vendo as imagens porque também gosto dos meus pés, assim como curto os pés de outras pessoas”, diz a jovem que responde pelo pseudônimo Cherry no anúncio em um fórum de serviços on-line. Alice já foi webnamorada – garota que é paga para manter um relacionamento platônico pela internet–, mas logo deixou o trabalho de lado para se dedicar às fotos. “[Quando se é webnamorada] a maioria vem pedindo nudes e imagens de partes íntimas, mas eu não faço”.

A jovem cobra R$ 20 pelo pacote de imagens. O combo, incluindo o pack com cinco fotos e um vídeo “ao gosto do freguês”, sai por R$ 50. Ela não revela quanto fatura com o serviço, mas afirma que já atendeu pelo menos cinco clientes.

A dominatrix Rainha Safiry, radicada em São Paulo, confirma que diversos clientes que a procuram gostam da podolatria somada à submissão, mas uma boa parte procura por seus serviços apenas para adorar seus pés — especialmente de cheirar e lamber o meio dos dedos. “Eles também têm tara pelas solas… quanto mais enrugadas, melhor; e pelos dedos mais alongados”, conta.

“Cerca de 65 a 75% dos meus clientes pedem coisas relacionadas a podolatria ou práticas que envolvem podolatria,” explica Rainha, que trabalha como dominadora profissional há oito anos.

Safiry conheceu a podolatria muito antes de trabalhar como dominatrix. Ela recorda o momento com exatidão: “Estava na rua esperando para entrar em uma casa noturna e um homem parou o carro para beijar os meus pés”

Com a internet, ela acredita que o fetiche foi ganhando mais visibilidade por causa do acesso à informação. “Quando participei do concurso de podolatria, vários caras do meu Facebook vieram falar que chegaram a achar que eram loucos simplesmente por terem tesão em pés,” diz.

No entanto, Safiry diz que já perdeu quatro contas de Instagram por causa do fetiche. “Tem uma caças às bruxas contra a podolatria. Já ouvi até casos de manicures que perderam o perfil por causa de foto dos pés”.

A hipótese de pedir repetidamente que desconhecidos enviem fotos dos pés ser parte do fetiche também foi mencionada por Érika Oliveira de Paula, sexóloga e psicóloga, que já explicou para a coluna Pouca Vergonha sobre a forma que os fetiches funcionam no cérebro.

“Quem gosta de podolatria sabe muito bem onde encontrar e pedir esse tipo de conteúdo. Existem comunidades fechadas virtuais e até encontros presenciais dedicados ao fetiche. Pedir a foto fora desses círculos faz parte do fetiche,” explica.

A psicóloga atenta ainda para o fato que a podolatria muitas vezes não é o único fetiche de alguém e pode ser combinado com outros, como a submissão e o voyeurismo.