MMA: mesmo com os preconceitos que o cercam, esporte segue revelando novas promessas na região

124

De uma década para cá, a prática de Artes Marciais Mistas (MMA) tem crescido exponencialmente no Brasil. Por meio de organizações como o UFC, a modalidade se modernizou, profissionalizando-se e ganhando notoriedade, o que fez com que uma gama de novos adoradores desse tipo de esporte surgisse.
Como em todos os casos de esportes que estão em evidência, o MMA acabou recebendo, junto dos holofotes, uma grande quantidade de críticas e prejulgamentos, acompanhados de uma análise superficial, feita, muitas vezes, por pessoas que desconhecem a realidade e o caráter de inclusão e ascensão social desse esporte.

Ascenção do MMA

É quase impossível desassociar o crescimento das artes marciais mistas do incentivo que os meios de comunicação deram a esse esporte. Nos últimos anos, tornou-se comum canais de televisão transmitirem, em horários comerciais, diversas lutas das principais organizações de MMA do mundo.
A mídia fez com que houvesse um desenvolvimento do marketing esportivo no mundo todo, com o intuito de lucrar com audiência, vendas, patrocínio e atrair mais adeptos para o esporte e mais telespectadores.
Com isso a modalidade tornou-se um produto para ser consumido pela massa, transformando-se em mais um tipo de entretenimento para as pessoas.

Em contrapartida, ao dar a mídia esse papel tão importante na propagação e disseminação da cultura de lutadores, os amantes desse esporte acabam tendo que lidar com a forma superficial com a qual ele é tratado pelos meios de comunicação em geral.
Junto com isso, vem os estereótipos e conceitos preestabelecidos de pessoas que já não conhecem a modalidade e acabam se deparando com transmissões despretensiosas e rasas, que se limitam apenas a repetir velhos jargões e discursos que não contribuem em nada para a desmistificação de antigos preconceitos ainda presentes.

MMA como um instrumento de mudança social

As artes marciais, contudo, não se limitam apenas, ao “glamour” e fama que os canais televisivos proporcionam. Pelo contrário, as lutas tem um aspecto educativo muito importante para jovens de todas as camadas da sociedade, sobretudo as mais desfavorecidas que é, muitas vezes, esquecido.

O trirriense André Tadeu Ferreira, treinador na academia de artes marciais ATS Tubarões Brasil, que ajudou a revelar o lutador de UFC Alex Cowboy, conta um pouco da importância desses esportes:

“As artes marciais fazem parte do grupo de pouquíssimos esportes que ainda conversam com os jovens. Lá eles aprendem que a palavra “não” também é importante, porque ela faz com que saibam o momento certo de agir e assim, escutem e respeitem os mais velhos e experientes.”


Alex Cowboy, junto de Miojo e seu treinador, André Tadeu
O treinador também destaca que as modalidades atribuem um caráter de igualdade a todos que praticam:

“Mostramos aos jovens a importância da derrota, não como um sinal de acomodação, mas sim como um sinal de respeito para com o oponente. Independente de cor ou situação financeira, todos são iguais e merecem o mesmo nível de respeito.”

O esporte é também uma grande ferramenta de transformação social e não se limita apenas a cuidar da saúde do corpo, mas da mente e do futuro de um jovem ou de uma criança. Nesse sentido, André se lembra do momento difícil da infância e como o MMA o ajudou:

“Fui criando por um padrasto que xingava e batia tanto em mim quanto na minha mãe, ou seja, eu tinha um mau exemplo muito forte na minha vida. E nem por isso eu trouxe essa maldade comigo, e as artes marciais tem um grande papel nisso. Aprendi a transformar meus problemas em força de vontade e que aquele exemplo que eu tinha em casa não era o correto. O MMA me deu tudo e sem dúvidas me fez uma pessoa muito melhor. O esporte pode e salva vidas, sou a prova disso” – concluiu o treinador.

A modalidade na região

Com todos esses ensinamentos e exemplos, novas promessas na modalidade têm surgido também aqui na região e Três Rios vem se tornado um polo muito atrativo para diversos lutadores de vários cantos do país.
A bola da vez é Daniel Miojo. O jovem, de 25 anos, é natural de Valença e treina na equipe de André e Alex Cowboy há cinco anos. Miojo assinou contrato com o UFC para lutar na categoria peso-mosca.

“Entramos no maior evento do mundo, objetivo realizado. Agora é ter os pés no chão para mostrar ao mundo nosso valor. Vai ser guerra, no melhor estilo, podem esperar o melhor de mim, eu vou chocar o mundo e mostrar o que eu venho dizendo há muito tempo!”- Escreveu o atleta em sua conta no Instagram.

Miojo soma 11 vitórias e apenas uma derrota no cartel. Em sua última apresentação, no mês passado, na competição Shooto Brazil 108, ele nocauteou o adversário no primeiro round, anotando seu terceiro triunfo consecutivo.

“Quando Daniel chegou aqui na cidade ele tinha apenas cinquenta reais para passar o mês. Quando o perguntaram como faria para se alimentar, ele foi até o mercado e voltou com vários pacotes de miojo, era o que ele podia comprar com o dinheiro, e disse que não haveria problema. Por isso o apelido. Naquele momento vi que ele era diferente.” -Lembrou André, com bom humor, da origem do apelido do seu lutador.

O lutador estreia no UFC dia 28 de outubro, em Las Vegas.