Cosme e Damião: gêmeos de 72 anos batizados em homenagem aos santos distribuem doces em Marechal Hermes

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— Estamos organizando para que não haja filas e aglomeração, com entrada das crianças por um portão e saída pela outro. Não vamos deixar que ninguém fique em risco — garante Damião.

Nascidos em 6 de abril, os irmãos contam que a família foi pega de surpresa com a chegada de dois bebês.

— Meu pai sempre foi devoto, tinha a imagem dentro de casa e fazia as preces e orações todo dia. Quando engravidou, a minha mãe não sabia que seríamos gêmeos, foi uma surpresa na hora do parto. Pela devoção, meu pai não titubeou e fez essa homenagem aos santos — conta Cosme.

Os gêmeos Cosme e Damião Celestino Magarão, de 72 anos
Os gêmeos Cosme e Damião Celestino Magarão, de 72 anos Foto: Hermes de Paula

A semelhança entre os irmãos é enorme — apenas detalhes no formato do rosto e o penteado os diferem. Tanto que até mesmo parentes já os confundiram.

— Minha mãe já conversou horas comigo achando que eu era meu irmão. Minha filha um dia começou a me chamar de tio. Aí eu perguntei “Poxa, até você?” e caímos na gargalhada — conta, aos risos, Damião.

Cosme lembra outras situações comuns a gêmeos.

— Eu já fui conversando com colegas de trabalho do meu irmão dentro do ônibus, no elevador. A gente acaba ficando sem graça de corrigir o erro dos outros.

Os irmãos gêmeos Cosme e Damião festejando juntos, com roupas iguais
Os irmãos gêmeos Cosme e Damião festejando juntos, com roupas iguais Foto: Talita Magarão

Até gostos pessoais às vezes são os mesmos:

— Eu já comprei camisas iguais às que o meu irmão comprou em outro lugar, sem eu saber. Antes da pandemia, nos encontrávamos em festas e estávamos com a mesma roupa. Na padaria onde tomamos uma cervejinha vez ou outra já aconteceu de chegarmos iguaizinhos — diverte-se Cosme, confessando já terem se aproveitado da semelhança: — Na juventude, trocamos de roupa no baile para um ficar com a paquera do outro.

Mas nem tudo é consenso entre os irmãos. Cosme é vascaíno, Damião, flamenguista. Cosme tornou-se eletrotécnico; já Damião, marceneiro. Até a altura da bermuda e a regulação dos óculos no nariz são diferentes.

— Ser 100% igual é ruim, um acaba roubando a personalidade do outro — destaca Cosme, que na certidão de nascimento é uma hora mais velho que o irmão.

Eles mantêm há décadas a tradição de distribuir doces no dia 27
Eles mantêm há décadas a tradição de distribuir doces no dia 27 Foto: Hermes de Paula

Os dois lamentam que a tradição da distribuição de doces esteja desaparecendo com o passar do tempo.

— Percebemos, ano a ano, que a quantidade de crianças nas ruas vai diminuído. O apelo era maior, é uma pena. É uma tradição tão bonita, um dia de tanta alegria. A gente arrumava mesas, decorava, enchia balões. Hoje não vemos mais crianças como antigamente. Tem ano que sobram saquinhos — queixa-se Damião.

Os santos também são festejados hoje, dia 26, de acordo com o calendário o litúrgico romano ordinário.

Pandemia transforma costumes

Elisabeth Bártolo embala doces com a família: tradição de São Cosme e São Damião mesmo em meio à pandemia
Elisabeth Bártolo embala doces com a família: tradição de São Cosme e São Damião mesmo em meio à pandemia Foto: Ana Branco

Na casa da gestora de recursos humanos Elisabeth Bártolo, de 55 anos, a pandemia afetou, pelo segundo ano consecutivo, a rotina de embalar as guloseimas.

— Assim como ano passado, dei preferência para doces embalados, e higienizamos tudo com álcool em gel — detalha Elisabeth, que mora em Vista Alegre e, ao contrário dos gêmeos de Marechal Hermes, dobrou a quantidade de saquinhos: — Meu marido ficou doente e se recuperou. Renovamos a fé. Foram 150 no ano passado, passamos para 300.

O bancário Roberto Alves, de 54 anos, também manteve os protocolos de segurança. Amanhã, ele espera alegrar o dia dos pequenos:

—Pensamos em colocar mais doces este ano dentro de cada bolsinha. Imaginamos que a crise financeira trazida pela pandemia deve ter levado muitas famílias a não mais comprarem doces para suas crianças, por falta de grana. A festa de São Cosme e São Damião proporciona isso.

Padroeiros dos médicos

Os gêmeos Cosme e Damião originais viveram no século III. Médicos, curavam as pessoas professando a fé cristã. Foram perseguidos e mortos pelo Império Romano. Por isso, são padroeiros dos médicos e farmacêuticos. Desde 2017, a festa é Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Rio.

Distribuir doces às crianças é uma característica que remonta à expansão de religiões afro no início do século XX, muito por conta da umbanda, que tem as entidades infantis associadas a São Cosme e São Damião. Dessa forma, os doces dos saquinhos remetem ao tabuleiro da baiana, como cocada e pé de moleque, e outros, como maria-mole e jujuba, que surgiram nos anos 1930 com a indústria da gelatina.