A ERA DO CHEIRO | Flamengo gabarita o ENEM: Nem Copa do Brasil; Nem Brasileirão e Nem Libertadores.

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Após a derrota do Flamengo por 2 a 1 para o Palmeiras na final da Copa Libertadores da América, ontem (27), alguns jornais cariocas adotaram um tom de provocação ao time rubro-negro.

A volta do ‘cheirinho’ e o fato de a equipe comandada por Renato Gaúcho poder terminar o ano sem os principais títulos que disputou ganharam destaque no “Extra” e no “Meia Hora”. A capa do ‘Meia Hora’ trouxe o personagem ‘Scrat’, da animação ‘A Era do Gelo’, com um trocadilho infame para provocar os flamenguistas: ‘A Era do Cheiro’. O jornal ainda fez outro jogo de palavras com o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

“Fla gabarita o ENEM: Nem Copa do Brasil, nem Brasileiro e nem Libertadores. Isso aqui é Flamengo: vice! Quis ser Tri da Libertadores, mas engasgou com o Porco, após gol do vascaíno Deyverson na prorrogação: 2 a 1. Urubu tá uma arara!”, destacou o jornal.

O “Extra” entrou na mesma onda de provocação, com a seguinte manchete: “O cheirinho voltou. Sem Libertadores, sem Copa do Brasil, sem Brasileirão”. “O sonho de um ano mágico para o Fla virou pesadelo sob o comando de Renato Gaúcho. (…) E agora, Renato, como explicar três fracassos com um time de R$ 200 milhões?”, questionou o jornal.

Adotando um tom mais sério, o “O Dia” destacou a tristeza flamenguista com uma foto de Gabigol cabisbaixo: “Decepção do tamanho da América”. “Em jogo tenso, Flamengo perde o título da Libertadores para o Palmeiras após empatar no tempo normal em 1 a 1, com Gabigol, e entregar o ouro na prorrogação em uma falha bisonha de Andreas Pereira no segundo gol do Porco”, destacou a publicação.

O Palmeiras mudou de vida a partir de 2015, ainda na gestão Paulo Nobre, com o ex-presidente, e também com o atual, Maurício Galiotte, afirmando que a ideia era ter o clube sempre competitivo e chegando em todas as disputas. Chegar era o objetivo e, no Parque Antarctica, ninguém teve a arrogância de querer ganhar tudo e sempre. “Aqui é Palmeiras”, não houve.

O projeto era disputar todos os títulos. Nos últimos seis anos, o Palmeiras não ganhou troféu nenhum, nem em 2017 nem em 2019. Como é praxe no futebol do Brasil, houve mudanças de treinadores, mas não se saiu do prumo. O Palmeiras disputou todos os títulos em todos os anos, desde a volta às glórias, com a Copa do Brasil de 2015.

“Hei, você aí, o Porco já é tri!” cantava-se na rua Turiassu, que virou Palestra Itália, depois da conquista contra o Santos, de Gabigol, dezembro de 2015. No ano seguinte, o troféu do Brasileirão, com Cuca. O Palmeiras não posou de soberano, nem disse que dominaria o futebol dos próximos anos. As declarações da diretoria sempre foram na linha “vamos disputar tudo sempre.”

Esta serenidade de quem admitiu o favoritismo do Flamengo e preparou a estratégia, única maneira de vencer. Abel Ferreira mudou o lado de Gustavo Gomez, para fazer a cobertura de Bruno Henrique, montou linha de cinco defensores, com Piquerez de terceiro zagueiro, venceu na única chance que possuía: estratégia. Abel Ferreira foi estudioso.

Entendeu Deyverson em bom momento, pelo gol na terça-feira contra o Atlético, exatamente como Breno Lopes anotou contra o Vasco, também quatro dias antes da final. Abel percebeu que Breno Lopes estava treinando bem, notou que Gabriel Veron pediu passagem antes do jogo contra o Galo, no Mineirão, entendeu o momento de Deyverson, comemorando e comemorado pela torcida no gol contra o Atlético, enquanto Luiz Adriano estava em litígio.

Sensibilidade para entender cada detalhe, cada momento. O Palmeiras é tricampeão, o primeiro bicampeão consecutivo desde o Boca Juniors de 2001. “Este título é nosso”, disse o presidente Maurício Galiotte. Contraste com uma frase recente do maior dirigente do Flamengo, dita a este colunista, ao telefone: “O Flamengo sou eu.”

Nenhum clube é um só dirigente. Nenhum clube ganhará tudo. Os exemplos de dez anos atrás indica, que times que se pensaram hegemônicos se perderam. O Palmeiras é tricampeão da Libertadores, entre outras coisas, por entender que ganhará e perderá. Será um dos maiores clubes do país. Não o único. O desafio de Leila Pereira é manter Abel Ferreira e também a simplicidade.

O Palmeiras é tricampeão da Libertadores. Um dos maiores clubes do país e do continente. Um de seus méritos é saber ser um dos maiores. Não o único.